
Além da Casa coberta com telhas fumaçadas e repletas de cupumã, uma corda era esticada de um lado ao outro da parede da cozinha sobre o fogão de lenha. Ali eram depositados os alimentos como carne seca, trança de cebola e alho, tripas de porco e de bode, espigas de milho seco pendurado pelas palhas, cascas de laranja para fazer o chá para dormir melhor. Todos esses mantimentos eram conservados e defumados graças ao fogão a lenha que, ao mesmo tempo em que cozinhava os alimentos, a sua fumaça produzida pela lenha, retirava o oxigênio do ambiente, fazendo com que as bactérias não prosperassem e mantinham a qualidade nutricional dos produtos ali depositados.
Se alguém desejar conhecer essa cultura, embora em extinção por causa da Geladeira, é só visitar a Fazenda Quixaba aqui em Serra Preta, pois minha mãe de 86 anos, não abre mão de suas tradições, que como Ela diz, “foi assim que fui criada e criei vocês todos” (seis filhos) e estão todos vivos e com muita saúde.
Em nossa casa edificada no Parque de Exposição em Salvador, também funcionou uma Barraca (quitanda) onde visitantes e turistas eram servidos os tradicionais pratos da nossa culinária, sarapatel, mininico, carneiro e bode assado na brasa com pirão de leite e outras iguarias preparados pela primeira dama D. Angélica, Dalva de Elias, Marina, profª Lúcia Bela, Ivone, Paulo de Rosinha, Miraldo da Ematerba e sua esposa dentre outras voluntárias - tudo isso regadas as nossas tradicionais bebidas, xarope, mulher parida, licor de quixaba e outras espécies de batidas. O carro chefe foi o requeijão de Serra Preta, fabricado ao vivo pelo nosso saudoso Capitão Arlindo e seu filho Adalto, no horário anunciado às 18 horas todos os dias.
Os visitantes faziam filas para experimentar a raspa do taxo, era muito divertido. A TV Bandeirantes, na época, fez uma reportagem do acender ao fogo a lenha na trempe de pedras, ao preencher as formas depois de pronto para esfriar. Dessa transmissão em rede nacional, passei a receber telefonemas na Prefeitura, muitos interessados na receita e outros fazendo encomendas do precioso alimento e daí em diante conseguimos divulgar Serra Preta, como a Capital do Requeijão.
Premiação: Primeiro lugar em originalidade, pois a Casa de Adobe foi única no estilo e os apetrechos como pilão, peneira pendurada na parede, chocalhos, candeeiro a gás etc. Uma curiosidade foi quando uma senhora da comissão julgadora, depois de olhar todos os detalhes da casa, descobriu que existia grilos nas fendas das madeiras velhas, caibros, ripas e peças. Naquele ano aqui no Município, devido a uma boa safra de milho e feijão, também surgiu uma epidemia de insetos e os pequenos animais foram transportados na F400 da Prefeitura, conduzindo para Capital todo material de construção destinado a edificação da Casa, Ela me indagou, “o que o Sr. vai fazer com esta casa depois do evento?” Assinei um termo para limpar a área em 24 horas. Ela, com sotaque francês, respondeu: “que pena, uma coisa dessa era pra ser guardada”. Posteriormente, conversando com Juvenal que lá comparecia diariamente me disse que tinha interesse naquele material, o que infelizmente não aconteceu.
Segundo lugar em animação, graças a Tuca de Emídio e o Forró Pé de Serra, Chico Ventura, Bule Bule, Cazuza e sua guitarra de dois braços, Cardeal, Badinho e seus filhos Antônio e João Batista, cantaram o “Reis” ao som da viola e pandeiro, acompanhados de rezadeiras e sambadores. Um grupo canta e outros respondem: “Oi de casaaa... Oi de foraaaa. Oi meninooo... Vai ver quem ééé...” Recentemente João Batista me confessou que foi depois dessa apresentação em Salvador, a nosso convite, que tiveram a ideia de fazer o atual Grupo de Samba de Ipirá.
Primeiro lugar em “Traje Típico” com a brilhante apresentação do Vaqueiro Joel da Santa Clara, que ao desfilar na passarela, representando o vaqueiro encourado (perneira, gibão, chapéu de ouro, esporas e tocando seu berrante, a multidão gritava repete, repete...).
Passados 20 anos, não se tem notícias que a nossa querida Serra Preta foi destaque em concursos culturais promovidos ou estimulados pelo poder público. Os artistas estão aí, a sua música também, mas a vontade política não é mais como se fazia antes. Muitos que estão vivos e participaram da Feira do Interior em salvador sabem do que estou falando e escrevo para que as novas gerações não esqueçam que nossa querida Serra Preta teve e tem potencialidade para continuar sempre em destaque.
Zelito Leite
Ex-Prefeito de Serra Preta e contribuidor do blog*
Assista ao vídeo, sem edição, da Feira do Interior
Mais imagens sem edição
* Assim como Zelito Leite e a artista Cátia Garcez, se você tiver uma boa história para contar, que tal escrever e encaminhar ao nosso blog? Teremos o maior prazer em publicar para os nossos leitores.
Serra Preta parou no tempo, quem entra na prefeitura agora é só pra ficar rico.
ResponderExcluirEu lembro desse tempo que Zelito foi prefeito, o municipio era outro, um verdadeiro canteiro de obras e muito investimento no esporte e na cultura. Se os outros prefeitos seguissem o trabalho, Serra Preta era outra.
ResponderExcluirZelito com o apoio da oposição vence Adeil tranquilamente. Será que Antonio apoia Zelito, Mário?
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