História e abandono marcam a cidade de Serra Preta, fundada em 1722
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| Serra Preta é uma das cidades mais tradicionais da Bahia |
Talvez na Bahia não exista uma sede municipal mais
abandonada e esquecida do que Serra Preta.
Por outro lado, são poucas as cidades baianas com a singularidade e a
riqueza histórica de Serra Preta.
Serra Preta é data de 1722, cem anos antes da
independência do Brasil. As terras, onde hoje a cidade localiza, foram
conquistadas por “José Pereira Mascarenhas, vindo do Estado do Piauí, trazendo
três filhos e inúmeros escravos”, registra um documento histórico do município
escrito em 1971 pelo poder público.
Mascarenhas beneficiou o local, montando um engenho de
açúcar, onde gradativamente desenvolveu o povoado de Boa Vista. O povoado era
estratégico para os mercadores que vinham de Cachoeira em direção ao sertão.
Além de apoio logístico, os viajantes contavam com a Lagoa dos Milagres, conhecido como Tanque Velho, importante reserva natural de água doce propícia
ao consumo.
Em 15 de agosto de 1722, foi edificada a capela, financiada
por João Carneiro de Oliveira, onde homenageou Nossa Senhora do Bom Conselho. A
partir de então o povoado passou a se chamar Boa Vista do Bom Conselho. Em
1831, mesmo anos em que D. Pedro I abandonou o trono do Império brasileiro, foi
criado o Cartório de Paz, já com o povoado denominado Serra Preta. Em 1938,
Serra Preta foi elevada a condição de Vila de Serra Preta e subordinada ao
município de Ipirá. Em 1953, a Lei Estadual 604 de 19 de dezembro tornou-se
Serra Preta cidade.
O censo de 1950 registrou uma população mais elevada que a
atual. 18.907 pessoas habitavam Serra Preta, hoje, o IBGE registra 15.401
habitantes. A população se concentrava basicamente na zona rural. Nesses anos,
Serra Preta enquanto centro urbano, possui 413 habitantes, atualmente pouco
mais de 700 pessoas. Outras aglomerações urbanas já existiam como o povoado do
Ponto de Serra Preta com 640 habitantes e o Bravo com 430 habitantes.
Ascensão e Decadência
No passado, Serra Preta foi ponto estratégico entre o litoral e o sertão
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| Casarões históricos são substituídos por novas construções |
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| Poder Público é totalmente ausente na conservação do patrimônio histórico |
Nos tempos de glória, a cidade de Serra Preta era o principal centro
urbano, comercial, político e cultural. As festas religiosas e populares eram
bastante atraentes. Multidões ocupavam a cidade durante os festejos. Segundo o
historiador Mário Ângelo Barreto, os antigos frequentadores da cidade diziam
que “morar em frente à Igreja do Bom Conselho era um privilégio para poucos”.
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| Sem projeto sustentável, a cidade de Serra Preta é ameçada a desaparecer |
Atualmente, Serra Preta vive um processo de esvaziamento.
Muito estão abandonando a cidade em busca de oportunidades em outros centros.
Serra Preta perdeu a magia e o centro do poder. O distrito municipal do Bravo, com mais
de 7.000 habitantes, passou a exercer a hegemonia urbana, comercial e administrativa. Com a perda da hegemonia local, as
moradias da cidade histórica não acompanham o valor imobiliário comparadas com outras localidades. Alguns
casarões são abandonados e sorte é o proprietário que consegue alugar um dos
imóveis em Serra Preta.
Da fraqueza surge a força
Para
o historiador Mário Ângelo Barreto, uma das saídas de desenvolvimento
para Serra Preta é o resgate cultural e o reconhecimento histórico
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| Rua Coronel João Reis está sendo descaracterizada paulatinamente |
Para o historiador Mário Ângelo S. Barreto nem tudo está perdido em
Serra Preta. A história e o parque urbano são a grande riqueza local. “Quando
piso na cidade de Serra Preta me sinto pisando em ouro vivo. É preciso debater
com os moradores locais a riqueza que eles têm e não conseguem aproveitar, nem
conservar. Desejo trazer a tona a valorização histórica e fortalecer o processo
de tombamento arquitetônico da cidade”, argumenta.
Para Ângelo, Serra Preta é totalmente viável economicamente, assim como Cachoeira, Lençóis e outras cidades históricas. “Serra Preta tem
características urbanas semelhantes à de Igatu, distrito de Andaraí na Chapada
Diamantina, mas com facilidade de acesso melhor”. Igatu fica sobre a serra do
Sicorá e a via de acesso é uma bonita, mas difícil estrada de pedras; enquanto
Serra Preta fica próxima da BA -052 e apenas a 160 km de Salvador.
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| Serra Preta, 148 Km de Salvador, precisa ser revitalizada |
Serra Preta é vítima de gestão pública amadora. A prefeitura
não possui nenhum projeto para a cidade. Há anos, o município foi administrado
por um grupo político que virou as costas para a Sede. Sem projeto sustentável,
o poder público cometeu um crime, que se logo nada for feito pode resultar no
desaparecimento do centro urbano secular.
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| Casarões históricos não recebem a devida proteção pública |
Além de seu povo, as riquezas da cidade são seus casarões, calçadas e o traçado
urbano - o que vem desaparecendo gradativamente. Os moradores perderam a
consciência de sua história, muitos estão destruídos as casas seculares e
construídos outras no local – o que é um erro grave! Alguns moradores acham até
importante destruir o patrimônio histórico e construir uma nova residência no
lugar. A própria prefeitura destruiu um barracão histórico e construiu um
mercado comercial no local. Mais recente, construiu uma quadra de esporte bem
em cima da nascente de um antigo córrego. Ou seja, quem deveria cuidar e
fiscalizar é o primeiro a destruir.
Cabe à prefeitura revitalizar a cidade e tombá-la como nosso
patrimônio municipal. O Estado também precisa tomar conhecimento da situação e através de seus institutos, IPHAN e IPAC, legitimar o processo de reconhecimento de Serra Preta como
patrimônio cultural e arquitetônico da Bahia.
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| População local deve aproveitar o ano eleitoral e cobrar melhorias |
Este ano é um ano eleitoral e a população local,
principalmente, deve exigir dos candidatos o compromisso político em abraçar a
causa e transformar Serra Preta numa potência cultural, artística e turística
da Bahia. O prefeito atual pouco fez. Chegou a reformar a caixa d'água, mas
descaracterizou a originalidade. Dividiu a pintura em duas partes, verde e amarelo, cores de sua gestão.
A
candidata da oposição, Angélica, se comprometeu politicamente, em revitalizar a
Sede, dentro dos critérios do IPHAN e PAC. Também, confirmou que se for eleita
enviará em tempo ágio um projeto de Lei reconhecendo a importância histórica de
Serra Preta. Vamos torcer para que o resgate da memória seja o interesse de
todos. Só assim, Serra Preta poderá, a médio prazo, recuperar os tempos nobres
que sempre teve.